Agosto de 2008
Arquivo Mensal
Dom 17 Ago 2008
Publicado por Cláudia Cordeiro sob
Histórias1 Comentário
Tenho muita história pra contar dos muitos anos de meu convívio com o poeta Alberto da Cunha Melo. Agora, motivado pela Cláudia e em louvor de sua memória, eu organizo o que já foi oralmente tornado público entre os amigos, sem que, no entanto, haja nesse gesto qualquer pretensão de produzir literatura.
Era uma vez em Jaboatão, nos idos de 1964. Nos meados daquele ano, o movimento estudantil voltou a se reorganizar na cidade Esse fato deveu-se a presença de novas lideranças estudantis como Jaci Bezerra, Glauco, Karl Marx, isto mesmo, Domingos Alexandre, Ricardo, Alberto e eu. Engajamos-nos na luta para retirar das cinzas a velha e desativada União dos Estudantes Jaboatonenses. Há dez anos que ela hibernava, já quase esquecida na memória dos estudantes secundaristas da cidade.
A tarefa exigia urgência, pois bem próximo estava para ser realizado o Congresso Estadual dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco. A coisa aconteceria em Caruaru, cidade do agreste pernambucano. Durante o congresso seria eleita a nova diretoria do Centro de Estudantes Secundaristas de Pernambuco, o cobiçado CESP.
As forças de esquerda e de direita com atuação no movimento estudantil pernambucano estavam disputando os eleitores voto a voto. O colégio eleitoral de maior peso estava no Recife e arredores. Por sua vez, a poderosa ARES, Associação Recifense de Estudantes Secundaristas, estava sob o controle da direita; entre seus líderes mais importantes destacavam-se o hoje senador Sérgio Guerra e Etore Labanca. Do lado da esquerda pontificavam os estudantes Marcelo Melo, Fortuna e Albérgio Maia. Albérgio, inclusive, havia sido derrotado por Sérgio Guerra na disputa pela ARES. Nesse contexto, para a esquerda o apoio e o voto da UEJ eram imprescindíveis.
Para conquistar o voto da UEJ, a direção do PCB mandou a Jaboatão os estudantes Marcelo, Fortuna e Albérgio. Eles tinham como tarefa o convencimento do poeta Alberto Cunha Melo, para que ele se lançasse candidato à presidência da entidade. A candidatura seria consensual, pois Alberto era muito bem aceito no meio estudantil. Ele tinha liderança e prestígio entre os estudantes, e era reconhecido na província pela sua capacidade intelectual Lembro-me ainda do seu discurso na recepção ao ex-governador Cid Sampaio, quando este proferiu conferência na Associação Comercial da cidade; mas esta é uma outra história que depois eu conto. Reunimos-nos num pequeno bar situado no beco de colônia, e lá se vai conversa. Presentes estavam Marcelo, Fortuna, Albérgio, eu (Pedro Vicente) e Alberto. Bate papo longo e com bons argumentos, e a crença na certeza da vitória, pois sairíamos dali com um candidato imbatível.
E daí, então, quando tudo parecia um mar de rosas, eis que Alberto levantou-se calmamente e disse: “Não vai dar certo. Eu sou muito medroso. Cago-me e mijo-me nas calças só em pensar que posso ser preso. Se apertarem um só dedinho de minhas mãos eu entrego todo mundo. Se me conheço bem, não posso aceitar nenhum cargo de risco, pois posso comprometer as pessoas que confiam em mim”. E logo em seguida, levantou-se, pediu desculpas e deu a conversa por encerrada; sem antes, contudo, deixar bem claro seu apoio ao candidato que viesse a ser lançado pela esquerda. Todos, sem exceção, deram uma baita risada, porém saíram confortados com o gesto humilde e sincero do poeta.
Nada melhor que um dia atrás do outro, pois os fatos depois acontecidos vieram a provar o contrário do que disse à época o poeta. O golpe desfechado pelos militares alguns meses depois daquela conversa, e que mergulhou o país numa sombria noite de horrores, levou o poeta a engajar-se na luta pela restauração da liberdade e pela democracia. Se tinha medo, mas quem não tem? So que ele soube como poucos controlar esse sentimento natural da condição humano. E passou a fazer oposição sem dar trégua à ditadura militar. Na universidade, no local de trabalho, na Associação dos Sociólogos de Pernambuco, no Acre e, sobretudo, na sua poesia. Seu livro Noticiário é o exemplo mais contundente do seu engajamento.
Assim era Alberto, meu bom companheiro.
Sáb 16 Ago 2008
Publicado por Cláudia Cordeiro sob
NotíciasSem Comentários
Na próxima segunda feira, 25 de agosto, a partir das 19 horas, no auditório da FAFIRE - Av. Conde da Boa Vista, 921, Boa Vista - Recife - PE - Entrada Francavocê terá oportunidade de encontrar-se com a arte de Alberto da Cunha Melo. Homenagem do 6º Festival Recifense de Literatura
Carne de Terceira com Poemas à Mão Livre, de Alberto da Cunha Melo (poesia) e Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo, de Cláudia Cordeiro (ensaio).
PROGRAMAÇÃO
A partir das 19horas
Vozes poéticas de nossa terra: homenagem a Alberto da Cunha Melo e Orismar Rodrigues
Abertura da Exposição Alberto da Cunha Melo
(Curadoria: Biblioteca Pública Estadual)
Recital Recife de toda poesia - alunos de Letras da FAFIRE
Alberto da Cunha Melo: “poesia para sempre” Cláudia Cordeiro
O imaginário pernambucano na obra de Gilvan Lemos Alexandre Furtado | FAFIRE
Coordenação: Liliane Jamir | FAFIRE
Homenagem da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco
EXPOSIÇÃO ITINERANTE: No caminho com Alberto” - 25 de agosto a 9 de novembro
PROGRAMAÇÃO
25|ago a 29|set 2008 Faculdade Frassinetti do Recife | FAFIRE
01|set a 12|set 2008 União Brasileira de Escritores | UBE
15|set a 26|set 2008 Espaço Alberto da Cunha Melo
29|set a 03|out 2008 Biblioteca Pública de Jaboatão
13|out a 31|out 2008 Biblioteca Pública do Estado de
Pernambuco
06|nov a 09|nov 2008 Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas | FLIPORTO
Notícia enviada para o mailing Plataforma para a Poesia. Clique aqui!
Conheça o site oficial do poeta: www.albertocmelo.com
Sáb 16 Ago 2008
Publicado por Cláudia Cordeiro sob
Notícias ,
HistóriasSem Comentários
As coisas e fatos que marcaram de certo modo nossas vidas não são esquecidos facilmente. A esponja por mais que seja eficiente deixa sempre resíduos que se reaglomeram e se condensam em imagens; e, uma vez ou outra, sem que tenhamos feito muito esforço surgem essas imagens sob a forma de lembranças que nos levam a retroceder anos e anos atrás no tempo. E isso aconteceu recentemente comigo.
Estava eu dias atrás pensando em encontrar uma maneira de divulgar minha pequena e modesta obra ensaística, pois os livros que publiquei estão todos esgotados, e devido as suas peculiaridades não creio que venham ainda motivar qualquer interesse ao editor. Socorro e minha filha Mariana sugeriram, então, que fizesse um blog e colocasse a obra a disposição do público, inclusive com reprodução livre para quem viesse a ter qualquer interesse em usá-la. A minha caturrice com o computador é de domínio público. Todos os meus amigos que navegam pela internet, passam, recebem e repassam e-mails e outros animais de igual porte me gozam. Assumo minha burrice e não me aproximo da tal máquina, até por medo que ela venha a me engolir e lançar-me no labirinto da realidade virtual. Se eu ficasse seguramente de fora, e elas, Socorro e Mariana, assumissem todos os encargos decorrentes da empreitada, então assim eu me disporia a usar o tal blog. Acordo feito, a partir daí passamos a pensar no nome, isso naturalmente ficou sob minha responsabilidade.
A escolha de título ou nome para qualquer peça literária que escrevi sempre me deu um trabalho dos diabos. Passo dias matutando. Mas ocorreu dessa última vez uma coisa estranha: divagava… divagava e só vinha o suposto título “Coisas da Vida” Que coisa, me perguntei. Até porque o título vinha sempre associado ao nome e a lembrança do meu amigo maior Alberto da Cunha Melo. Recorri a minha biblioteca e me encontrei.
Há cerca de dez anos atrás, numa de minhas andanças com meu amigo Homero Costa para visitar livrarias, em Campina Grande, num pequeno sebo deparei-me com um exemplar de livro de autor que não me era desconhecido; Eliezer Figuerôa era o seu nome. Obra provinciana que tratava de assunto provinciano: uma história da imprensa de Jaboatão. Comprei pelo preço e por haver no livro certo registro que me interessava. Lá estava um capítulo dedicado ao “Dia Virá”; jornalzinho que um grupo de estudantes fazia em Jaboatão. Nesse grupo estavam Alberto Cunha Melo, Zé Luis de Melo e eu.
Retirei o livro da estante, e consultei às páginas dedicadas ao “Dia Virá”. Nelas encontrei a chave do enigma. A recorrência ao título Coisas da Vida foi desvendada, pois ele estava referido a uma coluna assinada por um certo Joseph de la Rue, que no nanico “Dia Virá” era o pseudônimo de Alberto Cunha Melo, personagem fortíssima de minha breve história.de vida e intelectual. Agora, havia mais uma razão para me fixar em “Coisas da Vida” e dar este título ao tal Blog, pois esse fato veio a dar corpo à matéria da memória.
É bom realçar que ao meu amigo Alberto eu devo a minha iniciação intelectual. Numa entrevista para José Soares Júnior, publicada sob a forma de livro comemorativo dos setenta anos da Academia Norte-Rio-grandense de Letras, afirmei que duas pessoas haviam sido importantes em minha trajetória intelectual e de vida: o operário Sebastião Ricardo e o poeta Alberto da Cunha Melo. Através do primeiro, eu comecei a ler a literatura socialista; Alberto, por sua vez, revelou-me o mundo da poesia e aproximou-me de jovens intelectuais, que vieram a constituir o grupo de Jaboatão, deflagrador do movimento que ficou conhecido como geração-65, de marcante presença no cenário cultural pernambucano.
Para Alberto Cunha Melo, In memoriam, dedico este humilde blog que penso alimentar pelo resto de minha vida. Assim como Alberto denominou de poeta mentor a César Leal, eu o denomino de intelectual mentor de toda uma geração que teve o privilegio de tê-lo como amigo e orientador. Salve Alberto, em louvor da amizade; que em vida cultivamos por quase meio século, e que permanecerá por toda minha breve existência graças ao meu culto a tua memória e a tua poesia.
Nota: Alberto Cunha Melo encantou-se no dia 12 de outubro de 2007. Sobre este poeta maior consulte o site: www.albertocmelo.com
Acesse o “Coisas da Vida“: http://www.cenasecoisasdavida.blogspot.com/