Outubro de 2008


A POESIA PARA SEMPRE DE ALBERTO, INESPERADAMENTE…

RELÓGIO DE PONTO
Publicado em 12 de outubro de 2008 por Pedro Sette Câmara — Domingo com poesia, Literatura, Vídeos
| Reproduzido do blog de Pedro Sette Câmara || http://oindividuo.com/2008/10/12/relogio-de-ponto/ ||

Relógio de ponto
Alberto da Cunha Melo

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.

É tanta gente reivindicando para a poesia cada vez mais “estranhamento” que não seria injusto sugerir que os leitores são da Terra, e os poetas e os críticos são de Saturno. Por isso continuo em campanha por uma poesia “ligeira”, inteligível, que o leitor possa assimilar com certa facilidade e usar em sua experiência diária. Digo “usar” mesmo, porque estou cansado de esse verbo só ter conotações negativas ou, na melhor das hipóteses, neutras. Usamos a linguagem o tempo todo: a literatura é antes de tudo uma tentativa de usá-la melhor. E, para dizer algo bastante polêmico, sobre o que não me estenderei agora, também não consigo conceber a arte e as obras de arte como fins, mas apenas como meios. Tudo que há de melhor leva em conta em seu cálculo o efeito final sobre o leitor ou, generalizando, seu consumidor ou usuário. Joga-se para alguma platéia o tempo todo; antes assumir isso para poder jogar melhor do que afetar a autonomia e o narcisismo que serão engolidos inevitavelmente pelo jogo de cena…

Este adorável poema de Alberto da Cunha Melo pode ser chamado de “ligeiro” (naquele velho sentido audeniano que sempre uso) por ter, em seu centro, um clichê: “levar a sério”. Em mesas de bar, em blogs de pessoas que confundem ler e pensar muito com perceber algo, sempre haverá quem venha dizer que se orgulha de não se levar a sério – se a platéia está mais para a classe média intelectual acomodada em justificações de hedonismo – ou quem venha dizer que se orgulha ser muito sério sim – se a platéia está mais para a classe média intelectual acomodada em justificações de conservadorismo. A seriedade incomoda e define identidades: seja pela maneira como alguém leva a sério o não se levar a sério, seja pela maneira como alguém ostenta a sua seriedade.

Mas esse embate apenas aumenta a confusão. Se nos perguntamos o que um mestre da língua faz com um clichê como “levar a sério”, a resposta vem facilmente. A rigor – e poeta não é quem passa por cima do rigor – a expressão supõe uma atitude do sujeito, não do objeto. Só se poderia “levar a sério” aquilo que não tem seriedade. Estou ciente de que modernas teorias lingüísticas podem ser arremessadas sobre minha cabeça por eu fixar assim esse uso da expressão e atribuir-lhe precedência; mas faço isso seguindo a tradição dos poetas e fools Shakespeareanos, que gostam de apontar para esse tipo de contradição. Por isso, não somos nós que devemos ou não levar a sério as coisas: elas é que devem, ou não, nos levar a ser sérios, e o melhor que temos a fazer é seguir essa natureza delas. Nesse sentido, se vamos acrescentar às coisas alguma seriedade além da que elas já têm – ou não – é claro que elas vão dar errado, é claro que “tudo que levamos a sério / torna-se amargo”. Ou ao menos tedioso, diria eu.

Reparem agora na sucessão de elementos da primeira estrofe: jogos, poesia, pássaros, amor. Existe uma gradação neles. É claro que um jogo não deve ser “levado a sério”. Começar o poema com uma afirmação relativamente óbvia pode até ser bom, porque vai preparando o caminho para o não óbvio, vai estabelecendo um terreno comum com o leitor. Mas e a poesia, deve ser “levada a sério”? Não na opinião de Alberto da Cunha Melo neste poema, e aqui você já está mais disposto a ler o poema como uma apologia da leveza. Mas não deveria o poema estar acima dos pássaros? Bem, o número de pássaros que voam com sucesso é certamente maior que o número de poemas, e aqui lembro de um verso de Paulo Henriques Britto que diz que um bom poema depende “menos de arquitetura / que balística”. Por fim o amor, que, como no verso que termina a Divina Comédia, “move o Sol e as demais estrelas”, já abrindo caminho para a divisão entre Céu e Terra que virá depois e para as próprias estrelas do verso final.

É a natureza do amor e seu posicionamento ao fim da gradação, mais a própria leitura à moda do fool da expressão “levar a sério”, que permitem entender que acrescentar seriedade a algo que já está no centro de tudo pode levar o próprio universo a desandar… E é a simples atenção a essa primeira estrofe que permite mostrar como um poema imediatamente acessível, fácil, “ligeiro”, pode ter muito mais conteúdo do que obras muito mais ambiciosas.

Numa nota final, vale observar a pequena brincadeira métrica embutida no terceiro verso da terceira estrofe: enquanto todos os demais versos têm oito sílabas métricas, é justamente “um inesperado companheiro” que vem destoar com nove. Não interessa tanto que o inesperado seja também desajustado; interessa que o significado ecoa a brincadeira métrica e consegue “marcar o cartão”. O que, por sua vez, mostra a falta de “seriedade” que supostamente deixa a poesia na mão desses inesperados e ainda por cima intitula o poema “Relógio de ponto”…

No próximo dia 13 (Segunda-feira) de outubro de 2008,
familiares e amigos de nosso poeta maior Alberto da Cunha Melo estarão reunidos em memória dele, em dois momentos distintos:

16:30h -Exposição, Palestra e Inauguração da Sala de Leitura Alberto da Cunha Melo .Biblioteca Pública Estadual: Rua João Lira, s/n - Santo Amaro Recife - PE - Brasil CEP: 50.050-550 Fone: (81) 34238446
18:30h - Missa com o Pe. Sílvio Milanês. Igreja da Ordem Terceira de São Francisco - Rua do Imperador, s/n,Bairro de Santo Antônio - Recife - PE

Será uma honra e um alento compartilhar com você este momento. Mas, caso não lhe seja possível e queira enviar-nos algum registro, visite o site oficial do poeta (livro de visitas): www.albertocmelo.com ou neste blog (na opção “comentários”). Muito obrigada.

Cláudia Cordeiro

Isabel de Andrade Moliterno
acaba de enviar-nos link para acesso à sua tese de doutorado: Imagens, reverberações na poesia de Alberto da Cunha Melo: uma leitura estilística.

Isabel de Andrade Moliterno 2008 - USP

Acessos: Clique aqui ou copie e cole o endereço abaixo na barra de navegação de seu computador.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-07072008-095609/?C=M;O=A%20-%2015k

2008 USP - Isabel de Andrade Moliterno durante a defesa de tese

2008 USP - Isabel de Andrade Moliterno durante a defesa de tese

2008 USP  - Amigos da Isabel: uma  torcida organizada e vitoriosa.

Temos muitas histórias para contar sobre a convivência de mais de sete anos. Seguem alguns poucos registros fotográficos que dirão mais que nossas palavras emocionadas ao recordar tais momentos:

2003 - São Paulo - Aeroporto

Rodrigo Borring, Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordei - SP - Aeroporto - 2003

Foto: 2003 | SP: Rodrigo Borring de Mendonça, Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordeiro e Isabel de Andrade Moliterno. O livro “Meditação sob os Lajedos” de Alberto fora indicado para o I Prêmio Portugal Telecom e eu lançava o ensaio “Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo”. A Isa e o Rodrigo eram os mentores dessa empreitada em São Paulo com os autógrafos de Alberto no livro que recebeu o quarto lugar do Telecom e eu, ousadamente, lançei na USP, com palestra, o meu ensaio. Observem, na foto, que linda estrela sobre o poeta. Não é montagem.
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2003 - SP - Instituto de Estudos Avançados - USP

Isabel de Andrade Moliterno, Alberto da Cunha Melo e Al - 2003 - SP - Instituto de Estudos Avançados USP

No Instituto de Estudos Avançados, o inesperado afeto de um dos maiores teóricos de nossa Literatura, Alfredo Bosi. O poeta respeitado e festejado, com carinho.
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2003 - USP - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)

Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordeiro (palestrante)  - Palestra

Havia cartazes por todo canto, a Isa e o Rodrigo revelaram-se exímios divulgadores. Havia também o susto, o carinho e as Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo na minha pouca voz. Um das maiores emoções de minha vida.
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2003 - USP - Auditório

2003 USP - auditório - Durante a palestra \

Tudo foi “armação” da Isa e do Rodrigo. Observem as “feras” presentes. O medo veio e bloqueou minha voz, mas pertinentemente resisti e…
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2003 - USP - Auditório

2003 USP - auditório - Durante a palestra \

Acredito que houve emoção, muita emoção. A poesia maior de Alberto é definitivamente “PARA SEMPRE” como vaticinou Joaquim Cardoso em 1963.

Como, para nós, tudo começa em POESIA e nunca termina, segue link de edição de poema de Alberto: “Relógio de Ponto”, o preferido da Isabel. Clique aqui, ou copie e cole este endereço em sua barra de navegação:
http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/2004acmrelog.htm