CONSIDERAÇÕES SOBRE O VERSO DE OITO SÍLABAS

Gustavo Felicíssimo *

O verso de oito sílabas comporta vários tipos, os mais utilizados ao longo do tempo por autores brasileiros como Gonçalves Dias, Cruz e Souza e Alberto de Oliveira, por exemplo, foram, basicamente, com cesura na 4ª e 8ª sílabas, variando para 3ª e 8ª, e também 2ª, 5ª e 8ª.

Alguns poetas, como o simbolista Antônio Nobre, desarticularam o andamento dos seus octossílabos, variando a cesura, mas foi com os modernistas que a desarticulação maior começou a ocorrer, mais visivelmente em Cecília Meireles com o poema “Pergunta” e Manuel Bandeira em “Madrigal para as debutantes de 1946”.

Atualmente a desarticulação maior fica por conta do poeta Alberto da Cunha Melo que, deliberadamente, eliminou a cesura medial nos seus versos octossílabos, como neste fragmento do poema Casa Vazia:

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos

O octossílabo de Alberto da Cunha Melo é um verso não ortodoxo, com cesura marcadamente apenas na 8ª sílaba. Com ele o poeta privilegia a melodia, o andamento, a dança do verso, sem amarras. Desde seus primeiros livros Círculo Cósmico (1966) e Oração Pelo Poema (1969), o Alquimista de Olinda utilizou tal formato.

Temos a impressão que o poeta pernambucano é o brasileiro que mais utilizou o octossílabo em sua lírica, chegando mesmo a criar a Retranca, uma forma poética que se caracteriza por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.

Na Bahia, além deste blogueiro, diversos poetas estão fazendo Retrancas atualmente. Um deles é o poeta Silvério Duque, de Feira de Santana. Acompanhemos o poema “Para um pôr-do-sol no Recife”:

– Não penso, Poeta, em tua vida…
mas neste ofício que consome
nossas melhores esperanças,
nutrindo, do Amor, toda a fome,

neste manejo de palavras
a destruir sua própria lavra

e que é tão nosso quanto o tempo
ou o acumular de nossas noites
( forçosa negação da morte )

porque o temor da Eternidade
nos consola ante a Realidade.

Outro cultivador de Retrancas no seu jardim da poesia é o poeta soteropolitano Bernardo Linhares como no poema “Madrepérola”:

O céu também é madrepérola
no seio cálido da aurora;
as minhas mãos são duas conchas,
onde deslizam tuas pérolas;

são duas pérolas douradas,
brilhando assim, tranqüilas, claras;

em meio às luzes desse bálsamo
e o céu da boca à flor da pele,
levo nas mãos teu coração;

ao florir das primeiras horas,
teu seio é cálido na aurora.

Já esse blogueiro possui hoje um livro em sua maioria composto por Retrancas, como o poema abaixo, o primeiro fragmento de uma composição de médio fôlego, intitulada “Procura”, formada por dez Retrancas, 110 versos octossílabos.

Procuro um verso imaculado
feito água pura de cacimba,
um verso que devore a noite
feito a esgrima de uma rima;

um verso que abra a porta e siga
a sina viva da cantiga;

que lance luz sobre a cegueira
nossa de todo amanhecer
e que descubra as cordilheiras,

a manhã distinta e seus tons,
afável senhora dos sons.

Duas postagens abaixo o leitor pode conhecer outra Retranca de nossa autoria, trata-se do poema “Sinestesia”, postado dia 20.

Sabemos de pelo menos outros dois poetas baianos que estão a criar Retrancas, mas, infelizmente, não dispomos dos versos destes. Outrossim, gostaríamos de saber se em Pernambuco, terra de Alberto da Cunha Melo, a forma por ele cunhada vem sendo cultivada por seus vates.

Com a palavra, nossos amigos pernambucanos.
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*Gustavo Felicíssimo tem um livro com poemas compostos, em sua maioria, por Retrancas, em 110 versos octossílabos. Visite o blog do poeta: SOPA DE POESIA
http://sopadepoesia.zip.net/arch2008-09-21_2008-09-27.html#2008_09-24_00_09_57-114730253-0