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Sáb 28 Nov 2009
Seg 16 Nov 2009
Digitalizei os quatro volumes do livro manuscrito A noite da longa aprendizagem. Notas à margem do trabalho poético e comemoro com os amigos presenteando-os com esta foto raríssima de Alberto aos 4 anos de idade.



Seg 16 Nov 2009
No mundano jogo da glória - será necessário frisá-lo - há os artistas que fazem a sua obra e há os que são feitos por ela. A dos primeiros morre quando eles morrem, porque só eles a sustentavam; a dos segundos perdura ou só então é que nasce. Régio é destes últimos, daqueles a quem a obra transcende.— Vergílio Ferreira
Os amigos e admiradores pontuaram, no dia 13 de outubro p.p., dois anos sem Alberto entre nós. Eu registrei 63.072.000 segundos sem meu companheiro de uma caminhada de vinte e oito anos. No entanto, o legado literário que Alberto deixou se espraia pelo mundo, vai a Itália para traduzir-se por Katia de Abreu Chulata, ganha as páginas dos livros de amigos, como a do grande poeta Álvaro Alves e Faria, em sucessivas homenagens; insere-se em antologias, como a próxima da FCCR proposta por Heloísa; insere-se com seus artigos republicados na revista Continente Multicultural - Especial Fliporto Ibero-Americana, deste novembro. Insere-se na poesia de poetas como a de Gustavo Felicíssimo; nos blogs de amigos como Urariano Mota e Pedro Vicente Costa Sobrinho, nas letras deste e nas de Nelson Patriota; e revive no belo resgate promovido pelo escritor e amigo José Luiz de Almeida Melo… isso só para falar do dia 13 de outubro, o dos dois anos sem…, até esta data.
Alfredo Bosi me alertou pessoalmente, lá no Instituto de Estudos Avançados da USP, em 2003, que a obra de Alberto não precisava de divulgação, ela “sobreviveria ao tempo” em face de sua verdade, de sua grandeza.
A obra sobreviverá e será sempre e o poeta com ela, mas o homem não sobreviveu aos anos de injunções penosas em sua vida, em uma sociedade comodamente platônica: aos poetas só os louros… Foi impossível negar a Alberto os louros, e quantos, “No mundano jogo da glória”, os almejam! Mas lhe negaram uma vida digna nos limites do necessário, o mesmo ocorrendo hoje, o que me impede de dedicar-me inteiramente à compilação da enorme obra do poeta. Afinal: “És tão pouco/ tão pobre/ tão nada (…)”. Poucos suportam uma grandeza assim.
Cláudia Cordeiro
Sáb 14 Nov 2009
Escrito por Alberto da Cunha Melo
(Artigo da edição n. 5, maio de 2001, reproduzido na Revista Continente Multicultural, Especial Fliporto Ibero-americana, de novembro de 2009.Disponível também em http://www.continentemulticultural.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=+200+&Itemid=128
conforme acesso em 15.11.2009)
Conta-se que, durante o domínio árabe na Europa, um certo Almanzor, ministro do califa Hixe II, não só criou na Espanha uma oficina poética sob a direção de um crítico literário, onde os poetas eram pagos segundo o mérito de suas composições, como também costumava levar em suas expedições guerreiras uma penca de 40 poetas para registrar seus feitos.
Isso foi entre os fins do século 10 e princípios do século 11. Em seu magnífico Curso de Literatura Portuguesa (Lisboa, 1875), José Maria d’Andrade Ferreira procura descrever a influência da cultura árabe sobre a Europa, especialmente na Espanha, onde “floresceram com mais vívido esplendor os frutos de sua civilização prodigiosa: Córdoba, a científica; Granada, a poética; Sevilha, a monumental”.
As teorias contrárias ou a favor da influência da poética árabe na Europa se vêm digladiando há séculos. Eu não tenho tempo nem formação para entrar nessa briga. Mas sempre simpatizei com a teoria arabista, que afirma ser todo o trovadorismo medieval, o imprecisamente dito provençal e o galaico-português, esteticamente moldado pela poética muçulmana. E Andrade Ferreira vai mais além, ao afirmar que “o estilo oriental difundiu-se em todas as línguas romanas”. Enquanto isso, os antiarabistas sempre filiaram os trovadores medievais à poesia romana da Antigüidade, à secularização da poesia religiosa do medievo ou a eles próprios, os poetas.
M. Rodrigues Lapa, antiarabista possesso, no seu Das Origens da Poesia Lírica de Lisboa (Lisboa, 1929), acha que só deve ser creditada aos árabes “a transmissão de certos motivos poéticos e musicais da civilização greco-latina”. Cita ele o erudito alemão Konrad Burdach, para quem o conceito do amor cortês, o culto à mulher e a vassalagem amorosa, na poesia trovadoresca, são uma mera “resultante da arabização da cultura greco-latina”. Arabizar tal cultura não seria influenciá-la? Rodrigues Lapa encerra o assunto dizendo simplesmente que “o fundo visível da poesia românica, dita popular, é a poesia litúrgica”. Uma invasão de quase 800 anos tende a cegar de ressentimento os historiadores europeus.
As duas teorias também divergem sobre a origem da rima na poesia medieval. Não só os antiarabistas ressentidos atribuem o seu uso pelos trovadores à influência dos cânticos religiosos, a partir do século 4. O carrancudo crítico alemão Walang Kayser diz: “A rima final penetrou nas literaturas européias procedente da lírica latina dos princípios da Idade Média”. Discordando, Andrade Ferreira lembra que a rima na poesia latina é encontrada “como circunstância puramente ocasional”, enquanto “a poesia árabe aparece quase toda rimada”, embora a rima “não passe às vezes de assonâncias, (…) as assonantes, como ainda hoje usam os espanhóis”.
O livro de Andrade Ferreira fez-me lembrar de Luis Soler, outro arabista que passou despercebido por Pernambuco e deixou-nos seu precioso As Raízes Árabes na Tradição Poético-Musical do Sertão Nordestino, onde magistralmente descobre nos violeiros-repentistas do Nordeste uma forte sobrevivência da cultura árabe peninsular, especialmente no desafio poético. Soler bate forte nos historiadores antiarabistas, que fazem coro com a tradição oficial de “fazer de conta que tudo começou na Europa”, e passam por cima de uma influência que se estende “à tençó (tensão ou tenson) e aos jeux-partis provençais, às desgarradas e desafios portugueses, aos contrasti italianos e às palhadas ou payadas de vários países hispano-americanos”.
Impregnado de tais teorias, eis que me chega o poeta Alberto de Oliveira, com seu megaprojeto Pelas Trilhas do Repente e do Improviso, que terá como abertura o subprojeto Noitada Brasil-Espanha, com a participação de glosadores espanhóis, violeiros-repentistas nordestinos e declamadores dos dois países, que dirão poemas de João Cabral de Melo Neto e Federico García Lorca. Então me lembro que a poesia árabe ibérica se expressava não só em formas populares, mas parte dela apresentava uma dicção palaciana e erudita. Os ecos dessa poética nas formas cultas da poesia ocidental (tão orgulhosa de sua ascendência horaciano-aristotélica), eis mais um bom tema para pesquisa.
Pergunto-me até que ponto há vestígios árabes em Lorca e Cabral. “O embrujo (feitiço) mouro, que persiste na Espanha Meridional”, segundo Oscar Mendes, “não podia deixar de fascinar esse poeta (Lorca)” e “a forma simplesmente modelada, simétrica, artística”, que Andrade Ferreira admirava na poesia árabe, certamente está presente nos poetas espanhóis que influenciaram Cabral, principalmente porque, como me disse Mário Hélio, ele foi mais atingido pelos poetas espanhóis “da tradição medieval”. O megaprojeto de Alberto de Oliveira envolverá várias artes, não se limitando, portanto, aos violeiros-repentistas, e já conta com o apoio do Centro Cultural Brasil-Espanha. Só espera, agora, contar com a colaboração de empresários com alma de Almanzor.

Sáb 14 Nov 2009
No talk show da Fliporto Digital, durante homenagem a João Cabral de Melo Neto, surgem Drummond, Bandeira e Alberto da Cunha Melo, a partir de posicionamento de Antônio Miranda.
Declaração de João Cabral, recorte de Alberto da Cunha Melo:

Declarações como essa se encontram em todo o trajeto de Cabral. Colecionador inveterado de tudo sobre o poeta, Alberto não cansava de lembrar a frase do mestre: “O desespero não suporta música”. Mas lembrava também que, do outro lado, havia o diplomada, o homem gentil, treinado para sê-lo, jamais seria grosseiro ao ponto de afirmar que não havia gostado da música de Chico Buarque no auto de natal “Morte e Vida Severina”, por exemplo. Assim como manteve uma ótima relação pessoal com Vinícius de Moraes.
Cabral não detestava a musicalidade nos seus poemas, inclusive porque neles há, embora “À palo seco”, a voz da palavra, a voz do poema. Era, nesse sentido, um antibandeiriano. Não suportava a música sequer para minimizar o tormento da cegueira nos seus últimos anos de vida - o recorte acima é de 1998, um ano antes de sua morte. Foi taxativo: “Nunca gostei de música. Melodia mela”.
Sáb 14 Nov 2009
Urariano Mota, lança na Fliporto o seu Soledad no Recife e fala com entusiasmo sobre a cultura pernambucana, sua arte e seus artistas, e sobre o problema da centralização da distribuição cultural em São Paulo e Rio de Janeiro. Na entrevista, com o caráter irridento da alma nordestina, o escritor dá o seu recado e lembra Alberto da Cunha Melo. Acesse a Revista Brasileiros no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=Hx96eKh7vTw Acesse o blog de Urariano Mota: http://urarianoms.blog.uol.com.br/