Fevereiro de 2010


Alberto da Cunha Melo - Foto de Marcus Prado

Para visualizar a edição ampliada, clique aqui!

O poema “Canto do Poeta Dormindo”, de Bezerra de Lemos, está editado em um banner que se encontra na sala de visitas. No Natal de 2009, meu neto Miguel “pousou”, para minha surpresa, a caneta sobre ele, ao meu pedido de uma foto junto ao “vovô Beto”. Assim, o presente de Lemos presentificou-se possibilitando este meu agradecimento público pela gentileza comovente.

As lentes mágicas de Alexandre Belém encorajaram-me a reeditar estes poemas de Alberto da Cunha Melo à pertinência das temáticas: Em “Tôta”, o poema, você tem a imagem da “musa” ao lado da cadeira vazia do poeta, e ao “Exórdio” do livro Yacala corresponde a foto de anotações manuscritas que o poeta fez durante a criação da personagem desse épico de uma “estranha beleza”, conforme Alfredo Bosi. As fotos foram feitas em minha casa, no início de 2008, há quase três meses da morte de Alberto.

Para acesso à edição original do Trilhas Literárias clique aqui!

Você conhece muito mais da arte de Alexandre Belém visitando o blog do fotógrafo: Olhavê.
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Miguel pousa no banner com poema de Lemos  - Foto de Márcia Cordeiro

CANTO DO POETA DORMINDO
Poema para Alberto da Cunha Melo

José Bezerra de Lemos

O poeta que dorme é um pássaro.
O poeta que dorme é mais ave que um pássaro.
Do seu sono parece exalar musas.
Ele tem, nas mãos, os passageiros da vida
E encanta todas as odes.

O poeta dorme e redorme,
Leva nos seus versos calientes
O segredo das pedras.

O poeta dorme no sítio das palavras,
Desencantando casulos e zeugmas.
O poeta quase dorme…
Ele sangra seu sono.
O poeta dorme na sua ubiquidade,
Recolhido à maquinação do criador,
Onde qualquer metáfora joga-se ao abismo,
Pincenlando o milagre dos vocábulos
Onde se imagina o inimaginário.

O poeta de Carne de Terceira
Vesgou os olhos da História.
O poeta de Yacala dorme, apenas…
O poeta de Clau dorme, apenas…
O poeta de Clau in-Clau vive.

Foto de Alexandre Belém - Manuscrito de Alberto

  • EXÓRDIO

    Alberto da Cunha Melo

    Levamos fogo, não esponjas,
    ao trono sujo de excremento
    disputando o mesmo vazio
    de uma estrela no firmamento;

    jarros negros e estrelas, tudo
    é uma busca de conteúdo;

    ou somos renúncia ou cobiça,
    atravessando esses planaltos
    feitos de cinza movediça;

    mas todos estamos em casa,
    como os voos dentro das asas.

    (do livro Yacala)

    Foto de Alexandre Belém - Tôta

  • TÔTA

    Alberto da Cunha Melo

    É uma cadela de três meses
    que pesa menos de dois quilos,
    tem a cor cinza dos acasos
    e alma elétrica dos esquilos;
     
    sua alegria é a da torneira
    a vazar água a vida inteira,
     
    do amor liberto, transbordando
    da amostra-grátis de seu corpo,
    sem nunca saber até quando,
     
    da lição cósmica a emanar
    do perdão úmido no olhar.