Em edição de 300 exemplares (livro raro) viabilizada pelo médico e escritor José Luiz de Almeida Melo, vem aí a obra organizada por Alberto da Cunha Melo: Benedito Cunha Melo. Poesia Seleta.

Benedito Cunha Melo - Organizador Alberto C Melo
A importância da obra fica por conta das letras de Alberto que de 1994 a 2003 dedicou-se à pesquisa e compilação dos poemas e dados.

Nota do Organizador

Procurei organizar esta antologia da obra de meu pai atendendo a dois critérios, um subjetivo e outro objetivo. O primeiro, de natureza absolutamente arbitrária, pretendeu satisfazer o meu gosto estético, que decerto não coincidirá com o de outros leitores de seus livros. Mas, o que fazer?

Quanto ao segundo, tentou reunir composições que localizassem a sua poesia no quadro histórico das poéticas ainda vigentes no interior do Brasil, na primeira metade do século XX. As várias fases do Modernismo, nessa época, atingiam apenas áreas culturalmente privilegiadas das metrópoles.

Meu pai, que fez apenas o 3º ano primário, estudando com sua irmã negra, Maria Madalena de Jesus, foi, na verdade, um autodidata e complementava a renda familiar preparando os filhos dos operários — Jaboatão era uma cidade essencialmente operária — para o teste do “admissão ao ginásio”. Seu prestígio como professor de Português chegou a ponto de o seu amigo de juventude, o famoso educador Paulo Freire, em suas conferências no Estado, agradecer publicamente o que tinha aprendido, sobre o nosso idioma, com ele. Nesse tempo, suas leituras, que não eram sistemáticas, restringiam-se aos poetas românticos, parnasianos e simbolistas, no campo literário. O Modernismo não havia chegado ao interior de Pernambuco.

Essas três escolas literárias estão presentes em toda a obra de Benedito Cunha Melo, sendo que sua experiência parnasiana está livre dos hipérbatos, das mitologias greco-latinas e tematicamente não destoa dos poemas influenciados pelo romantismo trágico, à maneira de Álvares de Azevedo, como bem observou Luiz Marinho, no prefácio ao livro Da Morte, Folhas Secas e Outras Trovas, nem daqueles tocados pela musicalidade e sugestibilidade simbolistas de um Cruz e Souza, por exemplo. Mas, seja qual for o paradigma escolhido, manteve-se sempre fiel a uma das missões multimilenares da Poesia, que é a de en(cantar) e comover.

Meu pai foi o que se poderia chamar, tecnicamente, um poeta completo, na linha de um Horácio, na Antiguidade, e de um Bruno Tolentino, nos tempos atuais, isto é, lírico e satírico, ao mesmo tempo. Esta antologia enfeixa, apenas, uma amostragem de sua poesia lírica, uma vez que sua poesia satírica só foi publicada no Jaboatão Jornal, periódico de que foi um dos fundadores, juntamente com Van-Hoeven Ferreira Veloso, Elieser Figueirôa, Edu Bezerra de Oliveira e Arnaldo Gomes Portela, em 1950.

Já entrei em contato com Gilvan Veloso, filho de Van-Hoeven, que colocou a coleção do Jaboatão Jornal à minha disposição, para que seja feita a transcrição da coluna Trovas e Trovoadas, através da qual, durante vários anos, meu pai deu vazão à sua veia satírica, para a organização posterior de uma outra antologia desta sua face/fase poética.

A publicação deste livro vem suprir a necessidade de que as novas gerações conheçam a poesia de Benedito Cunha Melo, que é o autor do hino do padroeiro da cidade, Santo Amaro, e é nome da Biblioteca Municipal e de um colégio estadual naquele município. É tempo de justificar todas essas lembranças e homenagens pelo valor de permanência de sua poesia.

Alberto da Cunha Melo
(Olinda, 2003)

Biobibliografia

BENEDITO Tavares da CUNHA MELO nasceu no município pernambucano de Goiana, a 25 de março de 1911, filho do tabelião e poeta Alberto Tavares da Cunha Melo e Virgínia Tavares de Miranda Lins. Pelo seu pendor poético sempre ligado à sua região, recebeu o título de Cidadão Jaboatonense, através do Projeto de Lei elaborado pela Câmara Municipal de Jaboatão.

Benedito Cunha Melo, além da poesia, cultivava o jornalismo, sendo fundador e redator-chefe do Jaboatão Jornal, periódico mensal criado em 1950, onde por mais de 20 anos manteve uma coluna de trovas intitulada Trovas e Trovoadas, com textos predominantemente satíricos.

O poeta Benedito Cunha Melo foi o autor do “Hino de Jaboatão”, recebendo música de Nina de Oliveira, e autor do “Hino do Padroeiro Santo Amaro”, com música do padre Chromácio Leão. No bairro jaboatonense de Barra de Jangada, há um colégio estadual com o seu nome, homenagem sugerida por requerimento parlamentar do então deputado José Luiz de Almeida Melo. Por se tratar de um homem ligado à cultura literária, a Biblioteca Municipal também possui o seu nome.

Embora nascido fora daquele município, fixou residência em Jaboatão em 1924, onde conquistou fortes amizades. Teve sete filhos: Alberto, Maria das Graças, Margarida Maria, João Bosco, Sebastião Tarcísio, Francisco e Madalena Maria.

Benedito Cunha Melo faleceu em Jaboatão, no dia 6 de outubro de 1981, aos 70 anos de idade.

OBRAS:

Folhas Secas (trovas), 1939
Versos Diversos (sonetos e trovas), 1948
Nuvens de Pó (sonetos e trovas), 1949
Da Morte, Folhas Secas e Outras Trovas, 1954
Perfis (trovas satíricas), 1954
Trovas e Trovoadas (em co-autoria), 1962
Canto de Cisne (trovas), 1980