A escritora, tradutora e professora, Kátia de Abreu Chulata (Foto 2008, na minha residência, em busca do poeta), fez de “Yacala” seu projeto de tradução para o doutorado. Será uma tradução coletiva e o fruto dela só estará maduro daqui a uns dois anos. Mas é bom saber da obra de nosso poeta atravessando as fronteiras da língua portuguesa. Por este motivo, reedito aqui a entrevista de Alberto concedida a Mário Hèlio, no Jornal do Commercio de 27.06.99.
Yacala é homenagem à idade do chumbo
por MÁRIO HÉLIO
O poeta Alberto da Cunha Melo lança, nesta Terça-feira, dia 29, às 19h30, na galeria Futuro 25, o livro Yacala, um poema narrativo (mais de 1500 versos). A tiragem foi de apenas 200 exemplares, edição tornada possível por um sistema de subscrição em que cada pessoa compra, antecipadamente, o seu exemplar.
O método não é novo, mas, no caso deste livro, tem um aspecto curioso: a volta à linotipia, processo de impressão que já se julgava de todo sepultado. Para comentar essa volta à era do chumbo, o poeta Alberto da Cunha Melo concedeu entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, em que fala também do futuro da poesia e explica a origem e a estrutura do seu livro.
JORNAL DO COMMERCIO - Você foi um dos coordenadores da Pirata, editora especializada em publicar quase exclusivamente poesia de autores estreantes, pequena tiragem, e pouco requinte gráfico. Vários anos depois do fim dessa editora, retorna ao livro artesanalmente feito. Alguma nostalgia?
ALBERTO CUNHA MELO - Nenhuma saudade da Pirata, que usava o processo off-set, com matriz de limalha de ferro, mas da gráfica de “seu” Mauro, em Jaboatão, que usava tipos móveis e imprimia o jornal Dia Virá, anarquista, de que fazíamos parte eu, Jackson Vieira, José Luiz de Almeida Melo, os irmãos Bernardino, Raul Gadelha, Paulo José da Silva e outros. Desses, dois já morreram. Como já disse, no Suplemento Literário do Diário Oficial, a opção pelo linotipo (já que não encontrei uma gráfica com tipos móveis) é uma homenagem à idade de chumbo da tipografia, que tem mais de quinhentos anos de história.
JC - Em mais de um momento, você definiu a poesia como uma antimercadoria, portanto, oposta à atual sociedade de massa. No entanto, ela se presta à publicidade e até à música popular, considerando o uso de letras de poetas famosos por compositores PAGINA: 1cdc-27.apm FINAL DA COLUNA: 1conhecidos. Há mesmo uma incompatibilidade entre a musa e o mundo que se compra e vende? Rimbaud tinha razão em abandonar a arte pelo comércio?
ACM - Pedro Botelho diz que sensibilidade é inteligência dos sentidos e que a arte é uma oferta dos deuses e só pode ser realmente contemplada por poucos. Se ele estiver certo, somos forçados a acreditar que o mundo moderno marcha para a mais bruta insensibilidade, ou a burrice dos sentidos. O mundo inteiro está mergulhando no oceano do kitsch, que é produzido em escala planetária pela indústria cultural. O simulacro da arte, como o chamava José Guilherme Melquior, vai engolindo todos os espaços. Como poeta, cada vez mais procuro adaptar-me ao meu gueto, ao meu Tibet, e a forma de editar meu novo livro é um sinal dessa adaptação. No entanto, aceito com reservas a afirmação de que a poesia esteja sendo aproveitada pela publicidade e a obra de bons poetas esteja sendo musicada. Hoje, afora Cecília Meireles e Drummond de Andrade, com uns poucos poemas musicados, pouca coisa dos poetas ditos eruditos chegam às gravadoras.
JC - Parece haver uma tendência ao mesmo tempo metafísica e política na sua poesia, quanto à temática e ao espírito. Yacala é uma exacerbação disso?
ACM - É um livro síntese dessas duas temáticas. Eu diria que minha poesia chamada de política é mais precisamente sócio-econômica, fruto de minha vivência com a pesquisa de campo e a teoria sociológica no então Instituto Joaquim Nabuco.
JC - Para que poesia em tempo de crise? É possível poesia lírica depois dos campos de concentração? Como você responderia a essas indagações de Hoederlin e Adorno?
ACM - O século XIX é muitas vezes superior ao século XX no campo da poesia. Talvez a maior matança da história da humanidade tenha muita coisa a ver com isso. Pelo menos o lirismo romântico não teria condições de brotar neste século, apesar de que toda a música popular ocidental esteja centrada nele. O lirismo confessional e amoroso vende muito disco, mas um movimento literário centrado nele não teria vez neste século. No meu caso, a minha musa é a própria palavra e cada poema que faço é uma tentativa de torná-la “mais bela”, como queria Drummond, como a vem tornando João Cabral. A poesia é uma instituição social com quase quatro milênios de tradição no Ocidente, a contar da fase mítica grega, estimada em 1856 a.C. Guerras, crises e revoluções viram para ela matéria-prima, mas parece que o século XX exagerou na dose.
JC - Bruno Tolentino disse que você é o maior poeta brasileiro depois de João Cabral. Na sua opinião, qual o maior poeta depois de João Cabral? É Bruno Tolentino?
ACM - A pergunta é tão capciosa que soa até ofensiva. Eu estava posto em sossego, quando certa manhã José Paullo Cavalcanti Filho liga para mim perguntando se eu tinha lido a Veja da semana. Quando disse que não ele falou sobre a citação e parabenizou-me, porque Paulo vibra com todas as coisas que elevam Pernambuco. Depois, veio a Globo e me fez a sua pergunta. Respondi que o Art. 5º da Constituição garantia a liberdade de opinião e a moça, inteligente, omitiu o assunto na reportagem. Não me sinto o melhor depois de João Cabral e não sei quem vai ser seu sucessor. Cabral está num patamar tão elevado, que qualquer poeta depois dele não seria o segundo, mas o décimo. Ele é um dos cinco estilistas brasileiros, ao lado de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Augusto dos Anjos.
JC - Uma infinidade de octossílabos e agora um esquema regular de estrofação e rima. Por que a sua obsessão formal? Algum resquício parnasiano nisto?
ACM - Concordo com Melquior que acha que o Simbolismo tinha muitos pontos de contato com o parnasianismo, incluindo o culto da forma. Eu poderia dizer que a fusão da tendência plástica do parnasianismo, com tendência musical do simbolismo seria uma espécie de meta estética para mim. No entanto, é a busca pela autonomia do poema, a descoberta da diferença específica da poesia em relação às outras obras de arte verbais, o problema básico para mim. Esse novo livro procura privilegiar a cadência, a seca e misteriosa cadência do octossílabo.
JC - O modernismo apareceu dizendo que estava morto o poema narrativo, o concretismo que havia morrido o verso. No penúltimo ano do século, você publica um poema narrativo, em que o verso é soberano. Isso é uma demonstração de que são falsas todas as ideologias e teorias poéticas?
ACM - Essa mania de anunciar a morte dos outros é muito velha. Na metade do século passado, Gustave Flaubert dizia que “a poesia passou da moda” e era “completamente inútil”. Quanto ao poema narrativo ele não morreu coisa nenhuma Morte e Vida Severina é um poema narrativo de Cabral, que faz “o cante mais lacônico/ ainda que pareça/ estender-se um quilômetro”. Quanto aos concretistas, eles foram adotados pelos lingüistas e contratados pelas agências de publicidade, como Décio Pignatary. Não conheço nenhum gênio da vanguarda. Kafka é gênio; Joyce, não. Lembro-me de que Gustave Cohen disse que o gênio não perde tempo criando gêneros, e ele tem razão, mas poderia acrescentar: nem criando vanguardas. A computação gráfica vem colocando o concretismo em xeque. Tremores de superfícies.
JC - Do que trata Yacala, como foi a sua composição e por que a sua decisão de fazer apenas em duzentos exemplares, para subscritores?
ACM - É um poema absolutamente autobiográfico, escrito durante dois anos de trabalho diário, ou seja, do fazer, desfazer, refazer. O mundo literário, artístico, embruteceu-me. A arte e a ciência, quando distanciadas da compaixão (e não sou budista) embrutecem. Foram duzentos exemplares porque me convenceram a não fazer apenas 100. É apenas uma cópia, bem cuidada, para deixar nas mãos dos amigos. Vielimir Khliébnikov, grande poeta russo, que morria de fome no regime de Stalin, disse uma vez que “a pátria da criação está no futuro”. Depois de fecharem todas as Globos e shoppings centers do mundo?
Jornal do Commercio
Recife - 27.06.99
Domingo
(Disponível também em http://www2.uol.com.br/JC/_1999/2706/cc2706a.htm )
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