Histórias


Dante - em recorte de Alberto

“No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura.”

Dante - Divina Comédia
Trad. Augusto de Campos

2008 Katia e Vito - Em busca da poesia

A escritora, tradutora e professora, Kátia de Abreu Chulata (Foto 2008, na minha residência, em busca do poeta), fez de “Yacala” seu projeto de tradução para o doutorado. Será uma tradução coletiva e o fruto dela só estará maduro daqui a uns dois anos. Mas é bom saber da obra de nosso poeta atravessando as fronteiras da língua portuguesa. Por este motivo, reedito aqui a entrevista de Alberto concedida a Mário Hèlio, no Jornal do Commercio de 27.06.99.

Alberto e Yacala na retranca - Olinda, 1999

Yacala é homenagem à idade do chumbo
por MÁRIO HÉLIO

O poeta Alberto da Cunha Melo lança, nesta Terça-feira, dia 29, às 19h30, na galeria Futuro 25, o livro Yacala, um poema narrativo (mais de 1500 versos). A tiragem foi de apenas 200 exemplares, edição tornada possível por um sistema de subscrição em que cada pessoa compra, antecipadamente, o seu exemplar.

O método não é novo, mas, no caso deste livro, tem um aspecto curioso: a volta à linotipia, processo de impressão que já se julgava de todo sepultado. Para comentar essa volta à era do chumbo, o poeta Alberto da Cunha Melo concedeu entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio, em que fala também do futuro da poesia e explica a origem e a estrutura do seu livro.

JORNAL DO COMMERCIO - Você foi um dos coordenadores da Pirata, editora especializada em publicar quase exclusivamente poesia de autores estreantes, pequena tiragem, e pouco requinte gráfico. Vários anos depois do fim dessa editora, retorna ao livro artesanalmente feito. Alguma nostalgia?

ALBERTO CUNHA MELO - Nenhuma saudade da Pirata, que usava o processo off-set, com matriz de limalha de ferro, mas da gráfica de “seu” Mauro, em Jaboatão, que usava tipos móveis e imprimia o jornal Dia Virá, anarquista, de que fazíamos parte eu, Jackson Vieira, José Luiz de Almeida Melo, os irmãos Bernardino, Raul Gadelha, Paulo José da Silva e outros. Desses, dois já morreram. Como já disse, no Suplemento Literário do Diário Oficial, a opção pelo linotipo (já que não encontrei uma gráfica com tipos móveis) é uma homenagem à idade de chumbo da tipografia, que tem mais de quinhentos anos de história.

JC - Em mais de um momento, você definiu a poesia como uma antimercadoria, portanto, oposta à atual sociedade de massa. No entanto, ela se presta à publicidade e até à música popular, considerando o uso de letras de poetas famosos por compositores PAGINA: 1cdc-27.apm FINAL DA COLUNA: 1conhecidos. Há mesmo uma incompatibilidade entre a musa e o mundo que se compra e vende? Rimbaud tinha razão em abandonar a arte pelo comércio?

ACM - Pedro Botelho diz que sensibilidade é inteligência dos sentidos e que a arte é uma oferta dos deuses e só pode ser realmente contemplada por poucos. Se ele estiver certo, somos forçados a acreditar que o mundo moderno marcha para a mais bruta insensibilidade, ou a burrice dos sentidos. O mundo inteiro está mergulhando no oceano do kitsch, que é produzido em escala planetária pela indústria cultural. O simulacro da arte, como o chamava José Guilherme Melquior, vai engolindo todos os espaços. Como poeta, cada vez mais procuro adaptar-me ao meu gueto, ao meu Tibet, e a forma de editar meu novo livro é um sinal dessa adaptação. No entanto, aceito com reservas a afirmação de que a poesia esteja sendo aproveitada pela publicidade e a obra de bons poetas esteja sendo musicada. Hoje, afora Cecília Meireles e Drummond de Andrade, com uns poucos poemas musicados, pouca coisa dos poetas ditos eruditos chegam às gravadoras.

JC - Parece haver uma tendência ao mesmo tempo metafísica e política na sua poesia, quanto à temática e ao espírito. Yacala é uma exacerbação disso?

ACM - É um livro síntese dessas duas temáticas. Eu diria que minha poesia chamada de política é mais precisamente sócio-econômica, fruto de minha vivência com a pesquisa de campo e a teoria sociológica no então Instituto Joaquim Nabuco.

JC - Para que poesia em tempo de crise? É possível poesia lírica depois dos campos de concentração? Como você responderia a essas indagações de Hoederlin e Adorno?

ACM - O século XIX é muitas vezes superior ao século XX no campo da poesia. Talvez a maior matança da história da humanidade tenha muita coisa a ver com isso. Pelo menos o lirismo romântico não teria condições de brotar neste século, apesar de que toda a música popular ocidental esteja centrada nele. O lirismo confessional e amoroso vende muito disco, mas um movimento literário centrado nele não teria vez neste século. No meu caso, a minha musa é a própria palavra e cada poema que faço é uma tentativa de torná-la “mais bela”, como queria Drummond, como a vem tornando João Cabral. A poesia é uma instituição social com quase quatro milênios de tradição no Ocidente, a contar da fase mítica grega, estimada em 1856 a.C. Guerras, crises e revoluções viram para ela matéria-prima, mas parece que o século XX exagerou na dose.

JC - Bruno Tolentino disse que você é o maior poeta brasileiro depois de João Cabral. Na sua opinião, qual o maior poeta depois de João Cabral? É Bruno Tolentino?

ACM - A pergunta é tão capciosa que soa até ofensiva. Eu estava posto em sossego, quando certa manhã José Paullo Cavalcanti Filho liga para mim perguntando se eu tinha lido a Veja da semana. Quando disse que não ele falou sobre a citação e parabenizou-me, porque Paulo vibra com todas as coisas que elevam Pernambuco. Depois, veio a Globo e me fez a sua pergunta. Respondi que o Art. 5º da Constituição garantia a liberdade de opinião e a moça, inteligente, omitiu o assunto na reportagem. Não me sinto o melhor depois de João Cabral e não sei quem vai ser seu sucessor. Cabral está num patamar tão elevado, que qualquer poeta depois dele não seria o segundo, mas o décimo. Ele é um dos cinco estilistas brasileiros, ao lado de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Augusto dos Anjos.

JC - Uma infinidade de octossílabos e agora um esquema regular de estrofação e rima. Por que a sua obsessão formal? Algum resquício parnasiano nisto?

ACM - Concordo com Melquior que acha que o Simbolismo tinha muitos pontos de contato com o parnasianismo, incluindo o culto da forma. Eu poderia dizer que a fusão da tendência plástica do parnasianismo, com tendência musical do simbolismo seria uma espécie de meta estética para mim. No entanto, é a busca pela autonomia do poema, a descoberta da diferença específica da poesia em relação às outras obras de arte verbais, o problema básico para mim. Esse novo livro procura privilegiar a cadência, a seca e misteriosa cadência do octossílabo.

JC - O modernismo apareceu dizendo que estava morto o poema narrativo, o concretismo que havia morrido o verso. No penúltimo ano do século, você publica um poema narrativo, em que o verso é soberano. Isso é uma demonstração de que são falsas todas as ideologias e teorias poéticas?

ACM - Essa mania de anunciar a morte dos outros é muito velha. Na metade do século passado, Gustave Flaubert dizia que “a poesia passou da moda” e era “completamente inútil”. Quanto ao poema narrativo ele não morreu coisa nenhuma Morte e Vida Severina é um poema narrativo de Cabral, que faz “o cante mais lacônico/ ainda que pareça/ estender-se um quilômetro”. Quanto aos concretistas, eles foram adotados pelos lingüistas e contratados pelas agências de publicidade, como Décio Pignatary. Não conheço nenhum gênio da vanguarda. Kafka é gênio; Joyce, não. Lembro-me de que Gustave Cohen disse que o gênio não perde tempo criando gêneros, e ele tem razão, mas poderia acrescentar: nem criando vanguardas. A computação gráfica vem colocando o concretismo em xeque. Tremores de superfícies.

JC - Do que trata Yacala, como foi a sua composição e por que a sua decisão de fazer apenas em duzentos exemplares, para subscritores?

ACM - É um poema absolutamente autobiográfico, escrito durante dois anos de trabalho diário, ou seja, do fazer, desfazer, refazer. O mundo literário, artístico, embruteceu-me. A arte e a ciência, quando distanciadas da compaixão (e não sou budista) embrutecem. Foram duzentos exemplares porque me convenceram a não fazer apenas 100. É apenas uma cópia, bem cuidada, para deixar nas mãos dos amigos. Vielimir Khliébnikov, grande poeta russo, que morria de fome no regime de Stalin, disse uma vez que “a pátria da criação está no futuro”. Depois de fecharem todas as Globos e shoppings centers do mundo?
Jornal do Commercio
Recife - 27.06.99
Domingo
(Disponível também em http://www2.uol.com.br/JC/_1999/2706/cc2706a.htm )

Leia mais sobre Katia de Abreu Chulata e o lançamento de “Palavras” , na Itália. Clique aqui!

O artigo publicado no Diario de Pernambuco “Crônicas de um poeta indignado”, destaca do Marco Zero. Crônicas, publicado neste ano de 2009 que se finda, o artigo “Rituais de Espancamento” , onde Alberto descreve a rotina da tortura na cadeia pública de Jaboatão, que é localizada na rua Desembargadro Henrique Capitulino, s/n.

Essa cadeia hoje está tomada pelo Instituto Histórico de Jaboatão e foi lá que, na noite da sexta-feira 18, deste dezembro, foi lançado o livro Benedito Cunha Melo, Poesia Seleta. organizado por Alberto e totalmente pronto desde o ano de 2006. Um legado para a literatura brasileira que só possível graças ao amigo de infância e de Geração José Luiz de Almeida Melo.

Instituto Histórico de Jaboatão - Cantata Natalina

Cantata Natalina - Cláudia, Célia, Aída e José Luiz de Almeida Melo

Nessa noite, sob céu aberto, a única dor foi da saudade que bateu pesado na alma de amigos e familiares presentes. Uma belíssima noite, com direito a um pingado de chuva que nos ajudou a escamotear as lágrimas.

Assista ao poema que inspirou o título da crônica e, a seguir, o artigo do DP

Crônicas de um poeta indignado
Coletânea de textos de Alberto da Cunha Melo, publicada na revista Continente, sai em edição de bolso

Ao lembrar dos espancamento de presos na cadeia pública de Jaboatão, o poeta e jornalista Alberto da Cunha Melo expõe sua indignação contra o silêncio dos adultos diante daquela barbárie.
Escritor fala de festas juninas, matinês de cinema, poesia, política. Foto: Julio Jacobina/DP/D. A Press - 11/03/2004

Ele, adolescente no início da década de 50, nunca esqueceu os ruídos secos das pancadas. Com a lembrança martelando os ouvidos, Alberto da Cunha Melo apresenta um reflexão sobre a Declaração dos Direitos Humanos, tortura, leis e as práticas da escravidão arraigadas no Brasil. Rituais de espacamento é uma das crônicas do livro Marco zero, que será lançado hoje, durante o 7º Festival Recifense de Literatura - A Letra e a Voz. O livro reúne os textos publicados na Revista Continente entre dezembro de 2000 e outubro de 2007, quando morreu o poeta, no Recife.

Nesta e em outras crônicas, a bagagem intelectual de Cunha Melo traça mergulhos mais profundos para o entedimento de uma determinada questão. O autor utiliza seus conhecimentos de sociólogo para refletir e a faca amolada da poesia para não aceitar as injustiças da realidade. Neste Marco zero, mistura experiências pessoais com fatos midiáticos, abordando aspectos variados de temas tanto atemporais quanto fixados na realidade.

Em outra crônica (Academias, universidades e quejandos), ele confessa sua “antipatia atávica por duas instituições: a universidade e a Academia de Letras. Por considerá-las anacrônicas e corporativas. “Quanto à Academia de Letras, por exemplo, a mais importante de todas, a Brasileira, fundada em 1897 por um poeta hoje desconhecido, Lúcio Mendonça, preferiu eleger para seus quadros um almirante, um general e um cirurgião plástico, e preteriu dois luminares da literatura brasileira: Lima Barreto e Mário Quintana”.

As crônicas trazem a gudeza crítica de um homem comprometido com os problemas culturais de seu tempo, que não se entregou ao canto da sereia do mercado. Autor de 14 livros de poesia, Melo é considerado um autor fundamental da chamada Geração 65. Sua prosa tem a agilidade, a ironia, a desconfiança, a honradez de seus poemas, e agora inaugura a coleção de bolso da Cepe.

Serviço

Lançamento de Marco Zero - Crônicas de Alberto da Cunha Melo
Onde: Estande da Cepe, na Praça do Arsenal (Bairro do Recife)
Quando: Neste domingo, às 16h
Quanto: R$ 22
Disponível em: http://64.233.163.132/search?q=cache:p1tRiQknQEIJ:www.diariodepernambuco.com.br/2009/08/23/viver4_0.asp+alberto+da+cunha+melo+marco+zero+cr%C3%B4nicas&cd=8&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

Isabel de Andrade Moliterno
acaba de enviar-nos link para acesso à sua tese de doutorado: Imagens, reverberações na poesia de Alberto da Cunha Melo: uma leitura estilística.

Isabel de Andrade Moliterno 2008 - USP

Acessos: Clique aqui ou copie e cole o endereço abaixo na barra de navegação de seu computador.

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-07072008-095609/?C=M;O=A%20-%2015k

2008 USP - Isabel de Andrade Moliterno durante a defesa de tese

2008 USP - Isabel de Andrade Moliterno durante a defesa de tese

2008 USP  - Amigos da Isabel: uma  torcida organizada e vitoriosa.

Temos muitas histórias para contar sobre a convivência de mais de sete anos. Seguem alguns poucos registros fotográficos que dirão mais que nossas palavras emocionadas ao recordar tais momentos:

2003 - São Paulo - Aeroporto

Rodrigo Borring, Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordei - SP - Aeroporto - 2003

Foto: 2003 | SP: Rodrigo Borring de Mendonça, Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordeiro e Isabel de Andrade Moliterno. O livro “Meditação sob os Lajedos” de Alberto fora indicado para o I Prêmio Portugal Telecom e eu lançava o ensaio “Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo”. A Isa e o Rodrigo eram os mentores dessa empreitada em São Paulo com os autógrafos de Alberto no livro que recebeu o quarto lugar do Telecom e eu, ousadamente, lançei na USP, com palestra, o meu ensaio. Observem, na foto, que linda estrela sobre o poeta. Não é montagem.
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2003 - SP - Instituto de Estudos Avançados - USP

Isabel de Andrade Moliterno, Alberto da Cunha Melo e Al - 2003 - SP - Instituto de Estudos Avançados USP

No Instituto de Estudos Avançados, o inesperado afeto de um dos maiores teóricos de nossa Literatura, Alfredo Bosi. O poeta respeitado e festejado, com carinho.
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2003 - USP - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)

Alberto da Cunha Melo, Cláudia Cordeiro (palestrante)  - Palestra

Havia cartazes por todo canto, a Isa e o Rodrigo revelaram-se exímios divulgadores. Havia também o susto, o carinho e as Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo na minha pouca voz. Um das maiores emoções de minha vida.
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2003 - USP - Auditório

2003 USP - auditório - Durante a palestra \

Tudo foi “armação” da Isa e do Rodrigo. Observem as “feras” presentes. O medo veio e bloqueou minha voz, mas pertinentemente resisti e…
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2003 - USP - Auditório

2003 USP - auditório - Durante a palestra \

Acredito que houve emoção, muita emoção. A poesia maior de Alberto é definitivamente “PARA SEMPRE” como vaticinou Joaquim Cardoso em 1963.

Como, para nós, tudo começa em POESIA e nunca termina, segue link de edição de poema de Alberto: “Relógio de Ponto”, o preferido da Isabel. Clique aqui, ou copie e cole este endereço em sua barra de navegação:
http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/2004acmrelog.htm

Pedro Vicente Costa Sobrinho, Jomard Muniz de Britto e  - 2003 - Recife - Centro de Convenções - Prêmio Portugal Telecom

Tenho muita história pra contar dos muitos anos de meu convívio com o poeta Alberto da Cunha Melo. Agora, motivado pela Cláudia e em louvor de sua memória, eu organizo o que já foi oralmente tornado público entre os amigos, sem que, no entanto, haja nesse gesto qualquer pretensão de produzir literatura.

Era uma vez em Jaboatão, nos idos de 1964. Nos meados daquele ano, o movimento estudantil voltou a se reorganizar na cidade Esse fato deveu-se a presença de novas lideranças estudantis como Jaci Bezerra, Glauco, Karl Marx, isto mesmo, Domingos Alexandre, Ricardo, Alberto e eu. Engajamos-nos na luta para retirar das cinzas a velha e desativada União dos Estudantes Jaboatonenses. Há dez anos que ela hibernava, já quase esquecida na memória dos estudantes secundaristas da cidade.

A tarefa exigia urgência, pois bem próximo estava para ser realizado o Congresso Estadual dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco. A coisa aconteceria em Caruaru, cidade do agreste pernambucano. Durante o congresso seria eleita a nova diretoria do Centro de Estudantes Secundaristas de Pernambuco, o cobiçado CESP.

As forças de esquerda e de direita com atuação no movimento estudantil pernambucano estavam disputando os eleitores voto a voto. O colégio eleitoral de maior peso estava no Recife e arredores. Por sua vez, a poderosa ARES, Associação Recifense de Estudantes Secundaristas, estava sob o controle da direita; entre seus líderes mais importantes destacavam-se o hoje senador Sérgio Guerra e Etore Labanca. Do lado da esquerda pontificavam os estudantes Marcelo Melo, Fortuna e Albérgio Maia. Albérgio, inclusive, havia sido derrotado por Sérgio Guerra na disputa pela ARES. Nesse contexto, para a esquerda o apoio e o voto da UEJ eram imprescindíveis.

Para conquistar o voto da UEJ, a direção do PCB mandou a Jaboatão os estudantes Marcelo, Fortuna e Albérgio. Eles tinham como tarefa o convencimento do poeta Alberto Cunha Melo, para que ele se lançasse candidato à presidência da entidade. A candidatura seria consensual, pois Alberto era muito bem aceito no meio estudantil. Ele tinha liderança e prestígio entre os estudantes, e era reconhecido na província pela sua capacidade intelectual Lembro-me ainda do seu discurso na recepção ao ex-governador Cid Sampaio, quando este proferiu conferência na Associação Comercial da cidade; mas esta é uma outra história que depois eu conto. Reunimos-nos num pequeno bar situado no beco de colônia, e lá se vai conversa. Presentes estavam Marcelo, Fortuna, Albérgio, eu (Pedro Vicente) e Alberto. Bate papo longo e com bons argumentos, e a crença na certeza da vitória, pois sairíamos dali com um candidato imbatível.

E daí, então, quando tudo parecia um mar de rosas, eis que Alberto levantou-se calmamente e disse: “Não vai dar certo. Eu sou muito medroso. Cago-me e mijo-me nas calças só em pensar que posso ser preso. Se apertarem um só dedinho de minhas mãos eu entrego todo mundo. Se me conheço bem, não posso aceitar nenhum cargo de risco, pois posso comprometer as pessoas que confiam em mim”. E logo em seguida, levantou-se, pediu desculpas e deu a conversa por encerrada; sem antes, contudo, deixar bem claro seu apoio ao candidato que viesse a ser lançado pela esquerda. Todos, sem exceção, deram uma baita risada, porém saíram confortados com o gesto humilde e sincero do poeta.

Nada melhor que um dia atrás do outro, pois os fatos depois acontecidos vieram a provar o contrário do que disse à época o poeta. O golpe desfechado pelos militares alguns meses depois daquela conversa, e que mergulhou o país numa sombria noite de horrores, levou o poeta a engajar-se na luta pela restauração da liberdade e pela democracia. Se tinha medo, mas quem não tem? So que ele soube como poucos controlar esse sentimento natural da condição humano. E passou a fazer oposição sem dar trégua à ditadura militar. Na universidade, no local de trabalho, na Associação dos Sociólogos de Pernambuco, no Acre e, sobretudo, na sua poesia. Seu livro Noticiário é o exemplo mais contundente do seu engajamento.

Assim era Alberto, meu bom companheiro.

CONVITE:  Histórias com ALBERTO DA CUNHA MELO

Alberto da Cunha Melo e Pedro Vicente Costa Sobrinho - 2005 - Recife

As coisas e fatos que marcaram de certo modo nossas vidas não são esquecidos facilmente. A esponja por mais que seja eficiente deixa sempre resíduos que se reaglomeram e se condensam em imagens; e, uma vez ou outra, sem que tenhamos feito muito esforço surgem essas imagens sob a forma de lembranças que nos levam a retroceder anos e anos atrás no tempo. E isso aconteceu recentemente comigo.

Estava eu dias atrás pensando em encontrar uma maneira de divulgar minha pequena e modesta obra ensaística, pois os livros que publiquei estão todos esgotados, e devido as suas peculiaridades não creio que venham ainda motivar qualquer interesse ao editor. Socorro e minha filha Mariana sugeriram, então, que fizesse um blog e colocasse a obra a disposição do público, inclusive com reprodução livre para quem viesse a ter qualquer interesse em usá-la. A minha caturrice com o computador é de domínio público. Todos os meus amigos que navegam pela internet, passam, recebem e repassam e-mails e outros animais de igual porte me gozam. Assumo minha burrice e não me aproximo da tal máquina, até por medo que ela venha a me engolir e lançar-me no labirinto da realidade virtual. Se eu ficasse seguramente de fora, e elas, Socorro e Mariana, assumissem todos os encargos decorrentes da empreitada, então assim eu me disporia a usar o tal blog. Acordo feito, a partir daí passamos a pensar no nome, isso naturalmente ficou sob minha responsabilidade.

A escolha de título ou nome para qualquer peça literária que escrevi sempre me deu um trabalho dos diabos. Passo dias matutando. Mas ocorreu dessa última vez uma coisa estranha: divagava… divagava e só vinha o suposto título “Coisas da Vida” Que coisa, me perguntei. Até porque o título vinha sempre associado ao nome e a lembrança do meu amigo maior Alberto da Cunha Melo. Recorri a minha biblioteca e me encontrei.

Há cerca de dez anos atrás, numa de minhas andanças com meu amigo Homero Costa para visitar livrarias, em Campina Grande, num pequeno sebo deparei-me com um exemplar de livro de autor que não me era desconhecido; Eliezer Figuerôa era o seu nome. Obra provinciana que tratava de assunto provinciano: uma história da imprensa de Jaboatão. Comprei pelo preço e por haver no livro certo registro que me interessava. Lá estava um capítulo dedicado ao “Dia Virá”; jornalzinho que um grupo de estudantes fazia em Jaboatão. Nesse grupo estavam Alberto Cunha Melo, Zé Luis de Melo e eu.

Retirei o livro da estante, e consultei às páginas dedicadas ao “Dia Virá”. Nelas encontrei a chave do enigma. A recorrência ao título Coisas da Vida foi desvendada, pois ele estava referido a uma coluna assinada por um certo Joseph de la Rue, que no nanico “Dia Virá” era o pseudônimo de Alberto Cunha Melo, personagem fortíssima de minha breve história.de vida e intelectual. Agora, havia mais uma razão para me fixar em “Coisas da Vida” e dar este título ao tal Blog, pois esse fato veio a dar corpo à matéria da memória.

É bom realçar que ao meu amigo Alberto eu devo a minha iniciação intelectual. Numa entrevista para José Soares Júnior, publicada sob a forma de livro comemorativo dos setenta anos da Academia Norte-Rio-grandense de Letras, afirmei que duas pessoas haviam sido importantes em minha trajetória intelectual e de vida: o operário Sebastião Ricardo e o poeta Alberto da Cunha Melo. Através do primeiro, eu comecei a ler a literatura socialista; Alberto, por sua vez, revelou-me o mundo da poesia e aproximou-me de jovens intelectuais, que vieram a constituir o grupo de Jaboatão, deflagrador do movimento que ficou conhecido como geração-65, de marcante presença no cenário cultural pernambucano.

Para Alberto Cunha Melo, In memoriam, dedico este humilde blog que penso alimentar pelo resto de minha vida. Assim como Alberto denominou de poeta mentor a César Leal, eu o denomino de intelectual mentor de toda uma geração que teve o privilegio de tê-lo como amigo e orientador. Salve Alberto, em louvor da amizade; que em vida cultivamos por quase meio século, e que permanecerá por toda minha breve existência graças ao meu culto a tua memória e a tua poesia.

Nota: Alberto Cunha Melo encantou-se no dia 12 de outubro de 2007. Sobre este poeta maior consulte o site: www.albertocmelo.com

Acesse o “Coisas da Vida“: http://www.cenasecoisasdavida.blogspot.com/