O POETA

Para Alberto da Cunha Melo

Trôpego, o poeta caminha,
desafia o espaço e recria,
assim como um equilibrista,
a geografia do seu abismo.

A força que o impulsiona,
instinto necessário à vida,
arquiteta com traição
a hora do golpe final.

Cumpre a sua trajetória fatal
qual manso e belo cordeiro que,
cego pela luz mais próxima,
imagina vastas planícies.

Acaricia-lhe o vento
a face pálida e vazia.
Já não canta a felicidade,
apenas caminha e vai.

Clóvis Campêlo
Recife, 1991