A YACALA
Norma Godoy
À altura da mão, na estante,
a poesia de Alberto reverbera
em altíssima dimensão poética.
Ao folhear Yacala,
vibrações essencias se desprendem
vivificando toda a sala…
Como quem se redime,
deixo pétalas de rosa chá
sobre os versos:
“livre, como garra celeste,
que no Todo desaparece.”
(Norma Godoy em 12/02/2010)
Sílvia Câmara
Eis que o retorno é manso.
E a mansidão ajudou a soltar a voz
Entalada no peito:
Um dia eu viro só vento,
Nuvem clarinha algodoeira
Salpicada de entretantos.
São tantos os versos que choveriam…
Aqueles versos mais sutis
rabiscados no espaço
rendilhando o céu.
Mansos versos para dizer
Que a eternidade é imensa
E parece ser tão cruel.
Sílvia Câmara
(Após saber que o poeta Alberto da Cunha Melo havia encerrado sua jornada nesta vida na noite de 13/10/2007)
O POETA ALBERTO DA CUNHA MELO
Gustavo Felicíssimo
Daqui, das margens do Cachoeira eu brindo ao bardo
que vivente sob os mangues do Capibaribe
teve a bravura de ser entre todos o mais sublime e profundo artesão.
Um brinde ao poeta Alberto da Cunha Melo
descendo as ladeiras de Olinda, posso ver.
Um brinde ao poeta que ao meu lado bebe, agora,
e isso não é mentira ou ficção.
Outro chope, garçom,
sentimos sede porque a realidade é fuga
e fugaz o tempo se apresenta,
sentimos sede porque a realidade é crua
e terríveis são seus desdobramentos,
terríveis feito a razão que contraria a fé,
a vida envolvida em mistérios
e essa vertigem que me toma a pena e me oferece este poema.
A garota no quadro segurando um gato é triste
como é triste a condição humana,
como é triste o horizonte que nos margeia,
contudo, não será capaz a noite de evitar o gênio,
pois não há por que temer destino semelhante ao de Héspero,
por isso essa Elegia no ventre da noite,
esse copo de chope e o linguajar vulgar.
Seus poemas são os meus poemas, Alberto,
neles me reconheço e me edifico,
uma vez que o tempo gasto com inúteis procelas não nos alimenta
porque em essência somos feitos de suavidade e compaixão.
Eu sei não ser preciso este poeta,
este insignificante poeta eivá-lo de loas,
mas quiseram as Musas que fosse assim,
quiseram os anjos
e a pomba que pousou sobre os livros sagrados que fosse assim.
Ó alquimista de Casa Caiada,
mestre e desequilibrista da poesia brasileira,
próximo aos teus poemas não tenho horário
ou percebo o tempo esvair,
próximo aos teus poemas o momento é outro
e outras são as formas de existir,
próximo aos teus poemas tenho a lua, tenho os pélagos,
próximo aos teus poemas, Mestre, estou mais próximo de mim.
Agora vai, poeta, viaja no espaço que a despedida é dispensável,
leva consigo as nuvens e o silêncio da borboleta,
leva no coração os dias floridos
enquanto ficamos aqui, vivendo essa Casa Vazia.
gfpoeta@hotmail.com
www.sopadepoesia.zip.net
UMA ORAÇÃO PARA ALBERTO DA CUNHA MELO:
À SUA MANEIRA E COM CERTO ATREVIMENTO…
ao poeta e amigo, Gustavo Felicíssimo,
pela admiração que temos por este grande bardo pernambucano.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira;
quem sabe se nesta terra
não plantarei a minha sina?.
João Cabral de Melo Neto
– Não penso, Poeta, em toda a sua vida…
mas neste ofício que consome
nossas melhores esperanças,
nutrindo, do Amor, toda a fome,
neste manejo de palavras
a destruir sua própria lavra
e que é tão nosso quanto o tempo
ou o acumular de nossas noites
( forçosa negação da morte )
porque o temor da Eternidade
nos consola ante a Realidade.
SIILVERIO DUQUE
Feira de Santana, dezembro de 2007.
poetasilverioduque@ig.com.br
Leonardo Leão
Imposto brando, taxa tênue,
tirando a tirania
do tanto dentro
de tantos nós.
Agora Alberto,
aberto à alma de tudo
e de todos.
Agora Alberto,
ave leve à brisa do tempo
e das horas.
Lavo-me em louvações
e palavradas preparadas
para moer a paisagem,
que, de passagem,
pousa em minhas lágrimas.
Entala-me a garganta,
instala-se a fala tonta:
para que é solta a palavra
se não há sua pena a guiá-la?
Recife, 14 de abril de 2008
Em: www.developtec.com.br
Eloi Firmino de Melo
(Para Alberto da Cunha Melo,em memória)
Num instante
o arauto esconde a voz
nas fímbrias da cortina
do silêncio;
fechada é a porta livre
das palavras,
e a trombeta calada,
exposta ao vento.
Aquelas já firmadas,
antecedentes da veia fértil,
regam sempre as margens,
quando os rios carecem de vertentes.
Da academia
ao pé do botequim
um gesto de saudade morre
à mingua;
a parceria chocada se lamenta,
e a ausência fere o peito
ou se lastima.
Nas rodas mais estritas
há outras formas
de ver o pássaro deixar
os compromissos,
ou o lavrador
que já não rega a horta.
Não que a trombeta tivesse
o som escasso
ou esgotado o estro;
a partitura caberia,
se sabe, uma infindável
quantidade de notas e compassos.
É que o acervo olímpico
das palavras
já aquinhoara taças e louvores
por conseguir ali melhores saltos.
E assim
cumprida essa missão do bem
outros espaços paralelos
chamam
para o repouso eterno dos heróis,
que Beatriz apresentou a Dante.
Em: http://usinadeletras.com.br/
para ALBERTO DA CUNHA MELO
a tua lavra
é barca
socorre-me
a tua ausência
alastra-se
enorme
a tua ausência
é maior
que tua morte
silêncio
cláudia cordeiro
13.04.2008
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Abril 14th, 2008 at 12:17
Muito bonito, Cláudia.
Bonito e comovente.
Abraços sinceros
Clóvis Campêlo
Maio 13th, 2008 at 08:46
Se vai um poeta. Não apenas uma voz se vai. Vai-se uma visão ladrilhada com o sumo do difícil equilíbrio entre a experiência e a expressão. Não palpites a esmo; mas se vai uma constatação particular da existência. Uma constelação se desprende do sistema, se vai um poeta. Mas não um poeta apenas, como esses que há às pencas… Quando desaparece um poeta em alto verbo, um artífice do descortinar; Alberto da Cunha Melo, um fanal dá as costas e segue a iluminar outras suas rotas específicas.
Quem caminhava confiante, com correndo a gravar nas retinas a sua escrita de certo parou desapontado, num arrabalde vazio entre as rotas tortas. Aquele facho distinto não há mais clareando os caminhos (e se decepciona) diante da impossibilidade do encontro.
Mas flana o pendão, canto redivivo no registro concedido do poeta, a sua voz mais dura a ecoar o ‘Pombo Negro’ no ar, à sombra da alteza de uma ‘Gameleira’; ‘Yacala’; à margem das leituras…o meditar sobre outros Lajedos…
E por aqui, após o seu desvencilhar, nos queda a aguardar o amanhecer incerto nos bolsos. Nas vezes da pena, o grafite e a caneta sobre os papéis, rotos poemas. Enquanto madruga o tempo de maturar crisálidas em insetos; ficamos na vigília sem esteio, pelos subúrbios-quintais, trancafiadas as vozes derradeiras (a nos contentar) fraturada geração dispersa –, com nossas lanternas de lata: nossas luzes próprias.
Walter Ramos de Arruda
Junho 10th, 2008 at 10:33
Comecei a gostar das poesias de Alberto da Cunha Melo desde quando fui apresentada ao seu grande amor e musa inspiradora Cláudia Cordeiro no Teatro Hermilo Borba Filho em 2006. Depois fui à homenagem aos seus 40 Anos de Poesia prestada pela UBE - União Brasileira de Escritores, tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Alberto e Cláudia me ofereceram carona para Olinda no Fiat. Durante a viagem O Poeta começou a cantarolar versos de Paulinho da Viola ajudado por sua Clau, uma cena tão linda que na mesma hora lembrei de Vinícius de Moraes:
…”E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz”.
Conceição Pazzola